domingo, 3 de novembro de 2013

Quando o virtual é real


Antes de falar sobre o mundo virtual e digital, quero lembrar de uma aula sobre Novas Mídias, do doutor, professor e amigo Alex Primo. “Popularmente, chama-se de virtual tudo aquilo de diz respeito às comunicações via internet” e de acordo com os conceitos de Pierre Levy, citado por Alex, o virtual é um espaço real e, como exemplo cita o nosso próprio relacionamento na atualidade, com os modernos meios de comunicação, que existe de fato, é concreto e real.

O universo de potencialidades do mundo digital esteve recentemente a serviço do meio rural, tornando possível uma atividade característica dos pecuaristas familiares de Jaguarão. Vejamos, a extensão rural no município tem utilizado o concurso, como uma ferramenta para estimular aos pecuaristas familiares a troca de experiências e conhecimento de requisitos e técnicas para melhorar a qualidade do rebanho.

Pois bem... Os primeiros concursos ainda foram realizados na área do Sindicato Rural, na cidade, mas surgiram dificuldades relativas ao custo e logística para o transporte de animais, de vários pontos do município até a cidade. A sugestão criativa dos extensionistas locais foi gravar em vídeo os lotes de terneiras e vaquilhonas concorrentes, apenas com numeração para avaliação dos jurados. 

Uma equipe de comunicação foi a campo e gravou 34 lotes de terneiras e vaquilhonas, previamente selecionados pelos produtores, filmados num mesmo enquadramento, os quais foram editados em tempos iguais para cada lote. Graças à tecnologia digital, o concurso foi viabilizado de maneira econômica, pois os organizadores não possuíam estrutura para buscar os animais, em diferentes pontos do interior do município. O custo existiu, mas ficou dentro do serviço de assistência técnica e social prestada pela Emater/RS e, os 102 animais não precisaram ser transportados, couberam em um cartão de memória.

No dia do concurso, os pecuaristas e suas famílias foram até a cidade e lá pelo computador, assistiram na tela de cinema, as terneiras e vaquilhonas num belo desfile. Puderam então apreciar a qualidade da produção do campo, também tiveram a comprovação que o virtual é real, que alternativas e tecnologias existem... Precisamos de mais iniciativas e de criatividade.


Marco Medronha      mmedronha@hotmail.com

sábado, 26 de outubro de 2013

A hora da formiga

Quando se aproxima o verão e junto aqueles dias de calor intenso, que quase não dá vontade de ir trabalhar, lembro da fábula da cigarra e da formiga. O pessoal da minha geração (pré-internet), por certo irão recordar da histórinha infantil, em que a cigarra vivia cantolando com sua guitarra e convidando a formiga, que trabalhava pesado carregando folhas,  para largar tudo e ir com ela afim de juntas divertirem-se. 

Época de preparo do solo para o plantio das culturas de verão é só o início do trabalho que envolve a maioria dos agricultores. Agora é a hora do produtor, assim como a formiga faz, garantir-se para um inverno mais tranquilo. Um clássico exemplo entre as práticas agrícolas é a silagem, na qual o milho plantado agora vai garantir a alimentação das vacas no inverno. Nesse tempo de trabalho do agricultor formiga, muitas são as cigarras com poderes de persuasão, de fala fácil e o canto ardiloso, que tem levado muitos agricultores a perderem o foco. 

Portanto, atenção as armadilhas melodiosas e mantenha seu plano de trabalho, pois o agricultor pode ser na verdade diferente da formiga quando faz o planejamento das rotinas de atividades na propriedade, o ano todo. Neste caso, o trabalho não fica concentrado apenas na época de verão, só para exemplificar: Se conseguir armazenar água na propriedade durante o inverno, através de cisternas ou até mesmo no açude, não precisará sair correndo no verão e gastar o que não tem de recursos para molhar as plantas. 

Outro exemplo é realizar as práticas conservacionistas como o terraceamento (curvas de nível), cobertura do solo através do plantio das pastagens de inverno. Estas são práticas simples e obrigatórias a todo agricultor. Na fruticultura temos no inverno as podas de limpeza e de frutificação nos pomares, as quais são necessárias para uma boa produção de frutas no verão. Na pecuária temos o melhoramento do campo nativo e os cuidados com a sanidade do rebanho.

Outra medida necessária no verão ou no inverno é cuidar as outras formigas e, assim como fez a rainha da fábula, se alguma delas cair na tentação e sair por aí... tocando violão, seja firme e procure trazê-la de volta, pois não é nada bom ver o formigueiro espahado campo afora. Fazendo o planejamento durante o ano, o agricultor poderá ter também tempo, não só para se divertir, mas também condições de chamar “as cigarras” para tocar na sua festa.

Fábula: “No mundo das formigas, todos trabalham e se você quiser ficar conosco, cumpra o seu dever: Toque e cante para nós. 
Para cigarra e paras formigas, aquele foi o inverno mais feliz das suas vidas”.


Marco Medronha   mmedronha@hotmail.com

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Mais informação, mais consciência é igual a mais educação



Em um dia quente de início de verão estava indo para mais uma reportagem no meio rural, o destino era uma localidade no interior de Pinheiro Machado. Junto comigo no veículo estavam o cinegrafista e o palestrante da reunião, no meio do caminho tivemos que chegar em um comércio na beira da estrada para comprar uma água ou refrigerante, pois a umidade do ar estava baixa e o calor quase insuportável. Até aí tudo normal, mas jamais esqueci o momento em que o palestrante, depois de saciar a sede, abriu o vidro do carro e jogou a garrafa “pet” numa vala junto a estrada.

Não lembro bem quais foram as palavras que disse ao sujão, só sei que fiquei muito indignado, pois não esperava aquela atitude vinda de uma pessoa com formação superior e que revelou educação tão inferior. Depois da invasão do plástico, das latas e dos vidros, o nosso meio rural não é mais o mesmo e o lixo não é mais problema apenas dos centros urbanos. Hoje é comum você sair para uma atividade rural, seja a trabalho ou turismo, e encontrar vestígios de sujeira, rastros deixados por quem tem pouca consciência e nenhuma educação. No caso do palestrante em questão acredito que ele tinha a informação, mas ela estava adormecida e não foi capaz de se sobrepor as atitudes inconscientes da criatura que se julga culta.

Nem tudo está perdido. Ações, mesmo que isoladas em relação ao tema precisam ser divulgadas e o trabalho deve começar nas escolas entre as crianças e adolescentes. Nesta semana conheci um trabalho de educação ambiental realizado na Ilha da Torotama. É o projeto “Pescando Lixo”, no qual envolve os extensionistas da Emater, do Porto, de educadores e escolares do município de Rio Grande. Depois de palestras sobre a importância da água e a necessidade de preservação do meio ambiente, o grupo formado pelas instituições envolvidas e alunos da Escola Fundamental Cristóvão Pereira de Abreu, saiu em direção a Lagoa dos Patos para recolher o lixo deixado pela comunidade, inclusive pelos pescadores, que dependem da pesca para a sobrevivência.

Neste caso a comunidade da Ilha da Torotama, talvez não tivesse a informação sobre o tempo de decomposição dos materiais mais encontrados, por exemplo: Latas de alumínio (200 a 500 anos), Isopor (400 anos), pneus (600 anos), vidro (4000 anos) e garrafa “pet” (tempo indeterminado). Em apenas uma hora, o mutirão da limpeza recolheu em sacos plásticos, quantidade suficiente para encher mais de dez barcos de pesca.

A informação recebida pela comunidade, aliada a forma participativa dos alunos, uma “gincana”, contribuiu para elevar o conhecimento de todos, estimular a consciência cidadã e com certeza melhorar a educação. Tenho a convicção que ações direcionadas aos jovens, nas quais fazem deles protagonistas são efetivas e saem barato aos poderes públicos. Na verdade, não se faz necessário criar programas complexos e sim estimular atitudes simples onde a informação possa ser compartilhada e experimentada.

Marco Medronha     mmedronha@hotmail.com


sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Preciosidades nas mãos dos pequenos


As coisas preciosas da vida devem ficar sob o domínio dos grandes. Certo? Quando nos referimos a responsabilidades dos adultos em relação às crianças, talvez. Mas, quando tratamos de temas relativos à preservação dos recursos naturais, como o resgate e guarda das sementes crioulas posso afirmar que, neste caso as preciosidades devem ficar na mão dos pequenos. Sejam eles colonos, índios, quilombolas, assentados ou outra categoria de agricultores familiares que o homem teima em classificar.

O município de Canguçu e suas organizações de agricultores, juntamente com as instituições organizaram, neste mês de outubro (05 e 06/10/2013), a Feira Estadual de Sementes Crioulas e Tecnologias Populares. Na condição de repórter rural pude constatar que preciosidades decisivas para o futuro da humanidade estão nas mãos dos pequenos agricultores e que da resistência histórica desses grandes homens do campo depende a soberania alimentar do planeta.

Sementes crioulas de produtos a exemplo do milho, feijão, abóbora, hortaliças e todo tipo de alimento foram trazidas por agricultores da região como jóias raras, com objetivos de promover a troca de sementes entre as famílias produtoras e aquisição para quem desejasse cultivar e passar adiante. Além dos adultos, as escolas do município envolveram também crianças e adolescentes, os estudantes passaram a pesquisar as sementes e saber mais a importância para as comunidades. Nisso, veio também o respeito e a admiração pelo trabalho dos agricultores.

Foi de uma jovem estudante chamada Milena, que veio a inspiração para criar mais que uma frase, mas a síntese do pensamento da Feira de Sementes – “Crioulas: Sementes que resgatam o passado e garantem a segurança alimentar do futuro”. Acredito que o envolvimento da juventude nas causas nobres e fundamentais para o planeta pode trazer mais esperança na luta constante entre grandes, de interesses escusos e pequenos com ideais consolidados. Este é o tipo de disputa, em que todos saem perdendo, porque não teremos nem grandes e nem pequenos não existirem mais alimentos para o consumo.


Marco Medronha      mmedronha@hotmail.com

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A essência do Pampa


O Pampa no Brasil está presente no estado do Rio Grande do Sul e ocupa 63% do território gaúcho. Também conhecido como Campos do Sul ou Campos Sulinos, ele rompe fronteiras e constitui parte de territórios da Argentina e Uruguai. É formado principalmente por vegetação campestre, a exemplo de gramíneas, herbáceas e algumas árvores.

A origem do termo “pampa” é indígena, significado encontrado para designar “região plana”, característica de terras encontradas na divisa da região sul com o Uruguai. O pampa gaúcho possui tradição na atividade de pecuária e ocupa uma área de 40% do Rio Grande do Sul, uma tradição que se iniciou com a colonização do nosso País. A área pampeana da Campanha Meridional representa a maior proporção de campos naturais preservados, sendo um dos ecossistemas mais importantes do mundo.

As diversas categorias de profissionais e instituições, que atuam na área ambiental, vêem se manifestando de maneira formal ou informal sobre os efeitos danosos da monocultura sobre o terreno fragilizado do Pampa. A flora e a fauna passam a ser mais conhecidos e através da informação, os habitantes dessa região passam a realizar práticas agropecuárias sustentáveis, visando à preservação do meio ambiente.

Preservar as características naturais do lugar do planeta em que vivemos é uma necessidade, mas as pessoas não são coisas ou substâncias encontradas no ecossistema. A essência do Pampa é o grande legado humano deixado por homens e mulheres que lutaram bravamente para constituir uma pátria livre da escravidão, da exploração da riqueza e do trabalho duro de campesinos que tinham na fé e nos conceitos de comunidade, uma forma de construir uma nação.

A essência é o constitui a natureza e o cerne de um ser, independentemente de existir ou de ter existido de fato. O Pampa gaúcho é formado de coisas substanciais e espírito, a lógica clássica daquilo que não pode ser indissolúvel.


Marco Medronha     mmedronha@hotmail.com

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Pode entrar, a casa é sua


Quem anda pelo interior do Estado e na maioria das cidades gaúchas da região sul conhece bem a fala “pode entrar, a casa é sua”. Nesta expressão está representada uma das marcas da hospitalidade de nosso povo, que gosta de receber muito bem aqueles que chegam com missão de paz e trazem no coração um sentido claro de fazer novas amizades.

Recentemente recebemos a visita de dois jornalistas do Ministério da Agricultura da República de Cabo Verde, um país africano e um arquipélago de origem vulcânica constituído por dez ilhas, localizado no Oceano Atlântico. Manoel Brito e Rizulena Monteiro nos brindaram na chegada com um sorriso aberto, largo e fácil, era tudo o que precisávamos para abrir nossas portas, porteiras, cadeados, desfazer cercas e alambrados.

Os colegas africanos vieram em uma missão para conhecer a comunicação rural feita no Rio Grande do Sul. Como bom gaúcho e conhecedor dos costumes, o gerente de comunicação da Emater/RS-Ascar, Paulo Mendes elaborou um roteiro que incluiu uma visita a Pelotas, com objetivo de conhecer o Terra Sul, uma parceria da pesquisa e extensão rural, na produção do programa de televisão que possui mais de 20 anos, um patrimônio cultural e audiovisual das instituições nos registros das atividades e modo de vida das famílias rurais.

Mesmo para leigos sobre o universo rural é possível imaginar uma grande diferença entre os dois sistemas agrários. O Brasil um país agrícola de dimensões continentais, clima tropical com distribuição de chuvas regulares durante o ano contrasta com Cabo Verde, onde chove apenas em três meses durante o ano e possui pouca terra para produção de alimentos. A lotação do gado é apertada no país africano enquanto aqui, principalmente no sul do Brasil, os animais desfrutam de fartura de campo nativo para alimentação e muito espaço para criação.

Mas também existem muitas semelhanças, principalmente ao se tratar de pessoas e de relações amistosas. O idioma é o primeiro sinal de identidade, pois Cabo Verde foi colônia de Portugal e conseguiu sua independência apenas em 1975. Com base lexical portuguesa, o crioulo, língua original do Arquipélago sobreviveu influências externas e ainda é usada entre os descendentes cabo-verdianos de várias partes do mundo. O gosto pela música também é semelhante, onde o ritmo da percussão é bem marcada, lembrando muito nosso samba de raiz. 

Entre os jornalistas, a identidade é ainda maior. Não só pelo orgulho que cada um de nós cultiva por suas pátrias, independentemente de tamanho, mas pela consciência de que na comunicação plena não existem barreiras. Um sentimento de consenso predominou no encontro de duas realidades: É preciso deixar a porta aberta, pois se o mundo é nosso e desfrutamos do mesmo mar, pode entrar que a casa é sua.


Marco Medronha   mmedronha@hotmail.com

sábado, 7 de setembro de 2013

Pombos: Do sagrado ao profano


Ao ver pessoas condenando a presença dos pombos em seus condomínios verticais e a sujeira que eles provocam nos patrimônios públicos, fico pensando nos vários significados e sentimentos que a ave provoca desde a sua existência, durante toda a humanidade. Enquanto no presente os eles são acusados pela transmissão inúmeras doenças como histoplasmose, salmonella e criptococose, no passado a ave possui um ar de sagrado, quando no batismo de Jesus aparece como símbolo da Santíssima Trindade. Para os católicos, a pomba representa o Espírito Santo, a terceira pessoa juntamente com Deus Pai e Deus Filho.

O pombo comum ou pombo doméstico é uma ave da família columbidae, com grande variação de cores. Há poucas diferenças visíveis entre machos e fêmeas. Sua plumagem é normalmente em tons cinza, mais claro nas asas que no peito e cabeça, com cauda riscada de negro e pescoço esverdeado. A pomba branca faz parte do imaginário e representa a paz e muitas histórias no imaginário de reis e rainhas. Representa mais que uma lenda, mas o símbolo de liberdade quando soltas em revoadas ou então santificada quando aparece com um ramo de oliveira no bico.

Em muitos países os pombos são considerados um grave problema ambiental, pois competem por alimentos com as espécies nativas, danifica monumentos com suas fezes e pode transmitir doenças ao homem. Mas atualmente vê-se como exagero esta atribuição de vetor de doenças; como exemplo, o Departamento de Saúde de Nova Iorque não tem nenhum registro de caso de doença transmitida por pombos a seres humanos. De certa forma, esse dado me deixou aliviado porque não era a imagem que tinha sobre os pombos.

Os pombos que aprendi a admirar são aqueles que são tirados das cartolas mágicas ou os que são soltos em revoadas nos eventos esportivos. Além desses, sempre procurei entender a lógica dos pombos-correio. Segundo Marques (1997, p. 359 – 363), uma variedade domesticada do pombo-comum ou pombo-das-rochas (Columba livia). Foi escolhido porque, como todo pombo retorna geralmente a seu próprio ninho e a sua própria mãe, era relativamente fácil produzir seletivamente os pássaros que encontravam repetidamente o caminho de volta em longas distâncias. Os pombos-correios foram usados para carregar mensagens escritas em papel claro fino (tal como o papel de cigarro) em um tubo pequeno unido a um pé; por isso o nome de pombo-correio. 

O problema é que o animal por vezes idolatrado e respeitado como símbolo do sagrado e que tem nos penhascos seu habitat natural, invade as cidades do mundo inteiro e se reproduz em qualquer época do ano, com grande potencial de multiplicação. Até pouco tempo, havia uma certa tolerância aos pombos em pontos turíscos das grandes cidades, mas a fama de sujão e transmissor de várias doenças vem trazendo uma certa repugnância a presença dos pombos. Entre o sagrado e o profano, prefiro acreditar que os pombos ainda são as vítimas do desequilíbrio ambiental e do entendimento equivocado dos seres humanos.


Marco Medronha      mmedronha@hotmail.com