quinta-feira, 7 de março de 2013

A mulher que a poesia descobriu



No mês de março a mulher é exaltada em verso e prosa. A poesia faz homenagens à mulher operária, a diarista, a empresária, a doméstica, a profissional liberal, a mulher empreendedora urbana ou a mulher trabalhadora rural. Elas ocupam cada vez mais espaço na sociedade, em vários segmentos mostram muita competência. Será que existe no mundo alguma coisa que a mulher não seja capaz de fazer?

São todas reconhecidas por seus múltiplos valores e por uma única forma de ser: Mulher. De todas as fases, de todas as estações, mulher para o que der e vier. Na essência parece não ter idade. Como mostra a poesia de Martha Medeiros: “Sou uma mulher madura, que às vezes anda de balanço. Sou uma criança insegura, que às vezes usa salto alto. Sou uma mulher que balança. Sou uma criança que atura”.

Toda mulher possui seu esplendor único, defendido por Sêneca: “Uma mulher bonita não é aquela de quem se elogiam as pernas ou os braços, mas aquela cuja inteira aparência é de tal beleza que não deixa possibilidades para admirar as partes isoladas”. O sexo masculino manifesta preferências por algumas exuberâncias femininas, mas é no conjunto de atributos que se reforçam as relações mais duradouras.

O homem, na verdade sempre valorizou a própria existência, pois ela depende da mulher. O poeta Vinícius de Moraes compara a mulher com a vida, à beleza e à amizade, sentenciando: “Você (mulher) tem que ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois”. A ligação da mulher com a vida e de tudo que é belo, não é uma simples utopia do poeta. É só imaginar a magia da concepção de uma nova vida, beleza resultante do ato de amor entre o homem e a mulher. Quanta poesia pode ser criada à infinita maravilha da mulher gestante.

Mas uma mulher em especial, além de estar nos versos dos poetas e poetizas, apresenta qualidades típicas do bem servir. Um tipo de mulher que faz parte de um jardim onde as flores são únicas e todas são comprometidas com a harmonia do conjunto. Mulher que trabalha com leveza, mesmo quando a jornada é dura, porque ama o senso de utilidade, que se importa com o bem estar pessoal e coletivo. Mulher que abraça a casa e a causa. É a trabalhadora da extensão rural. A mulher que a poesia descobriu como luz de esperança a milhares de famílias no campo.
Uma homenagem as mulheres trabalhadoras da Emater/RS-Ascar.

Marco Medronha    mmedronha@hotmail.com





terça-feira, 5 de março de 2013

O Negrinho mais querido dos gaúchos


Dia desses, ao chegar num condomínio urbano de Pelotas, fui supreendido por uma cena inusitada, ao menos para mim. Um jovem gaúcho sentado em um banco rústico, sorvia prazeirosamente um chimarão. Ele estava sólito, com olhar distante e típicamente trajado, como manda a indumentária do movimento tradicionalista. Ao seu lado, como uma espécie de altar, uma pequena estatueta de uma figura montada num cavalo branco.
A primeira vista parecia a imagem de São Jorge, mas achei estranho, respeitando a todas as crenças, um gaúcho pilchado venerar o santo guerreiro. Ao chegar mais perto e, como repórter que sou, perguntei ao guadério: “E aí tchê... com saudades do campo”. O gaúcho respondeu: “Pois é... moro aqui no condomínio mesmo, mas todo dia sento aqui com o meu Negrinho do Pastoreio, na esperança que ele me dovolva a querência que perdi”.
Todo gaúcho que se preza conhece a lenda do Negrinho do Pastoreio, muito contada nas rodas de prosa, principalmente nos rincões do Rio Grande do Sul, desde o final do século XIX, em especial por aqueles que defendiam o fim da escravidão. Na versão escrita pelo pelotense João Simões Lopes Neto, o protagonista é um menino negro e muito pequeno, escravo de um estancieiro muito mau; este menino não tinha padrinhos nem nome, sendo conhecido como Negrinho, e se dizia afilhado da Virgem Maria.
Diz a lenda que o Negrinho, após perder uma corrida e ser cruelmente punido pelo estancieiro, caiu no sono e perdeu o pastoreio. Ele foi castigado várias vezes, mesmo tendo achado o pastoreio. Mas muito cansado, caiu no sono novamente e perdeu o pastoreio pela segunda vez. Desta feita, além da surra, o estancieiro jogou o menino sobre um formigueiro, para que as formigas o comessem, e foi embora quando elas cobriram o seu corpo.
Três dias depois, o estancieiro foi até o formigueiro, e viu o Negrinho, em pé, com a pele lisa, e tirando as últimas formigas do seu corpo; em frente a ele estava a sua madrinha, a Virgem Maria, indicando que o Negrinho agora estava no céu. A partir de então, foram vistos vários pastoreios, tocados por um Neguinho, montado em um cavalo baio.
O Negrinho mais querido dos gaúchos é tratado com devoção, pois cada vez que se perde algo aqui nos pampas preces são dirigidas aos céus, ao Negrinho, a Virgem Maria e, quem ora pede também a Deus, assim nossos pedidos serão atendidos. “Que o Senhor devolva a todas as pessoas, a capacidade de orar e acreditar, que com fé, tudo pode ser concedido”.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Perigos da tormenta, temporal ou tempestade

Quando o tempo ficava feio lá fora, minha avó tinha um ritual: Cobria os espelhos, fazia uma cruz de sal, desligava a eletricidade, guardava facas, tesouras e rezava para Santa Bárbara. Nunca discuti ou duvidei dos seus métodos, porque sabia que aquilo era uma forma de proteção a nossa família, uma atitude da experiência. Todos nós, por certo já ouvimos algumas histórias sobre acidentes causados por tormenta, temporal ou tempestade.

Dia desses ouvi no noticiário do rádio o depoimento emocionado de um agricultor, que perdeu toda a sua produção por causa da chuva de granizo, ele se referiu ao termo “tormenta”. Num primeiro momento achei estranho a forma como ele falou do evento, ao investigar descobri que: Tormenta é uma palavra do português, um substantivo que significa tempestade forte; Temporal é relativo ao tempo, grande chuva, tempestade e Tempestade é um estado climático caracterizado por ventos fortes e, muitas vezes, acompanhado por chuvas de granizo, relâmpagos e trovões.

Alguns agricultores são resignados pela ocorrência de perdas nas lavouras, outros fazem o seguro agrícola, pois sabem dos riscos e dos perigos dos fenômenos climáticos. Infelizmente, eles são comuns no campo e não raramente fatais. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), os raios principalmente, já causaram a morte de 1321 pessoas no Brasil entre os anos 2000 e 2010. O país é o campeão mundial de descargas elétricas e esse número vem aumentando com os anos, recebendo cerca de 50 milhões de raios por ano.

Tecnicamente, o raio é um fenômeno natural também chamado popularmente de relâmpago. É uma descarga elétrica ou descarga atmosférica que ocorre entre nuvens ou entre a nuvem e a terra. Os raios podem causar destruição atingindo pessoas, residências, danos a eletrodomésticos, transformadores e etc. Eles, os raios, costumam cair no caminho em que encontra menor “resistência” entre a nuvem e a terra. Os pontos altos e pontiagudos favorecem o início da descarga elétrica.

Certamente, o maior dano é a integridade física das pessoas e onde reside nossa grande preocupação. Na próximo espaço do Repórter Rural estarei falando sobre os perigos das descargas elétricas na praia e no campo.

Na praia ou no campo: Atenção redobrada

As tempestades climáticas, acompanhadas por descargas elétricas, vêem sendo monitoradas pela meteorologia. Felizmente, os serviços de previsão do tempo, através de suas estações espalhadas pelo país alertam, com certa eficiência, para os perigos dos prováveis eventos. No entanto, os cuidados ainda dependem de cada pessoa e, o mais importante é a informação como subsídio de como proceder em situações adversas. Na praia ou no campo, a atenção deve ser redobrada.

As recomendações do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) alerta, que durante as tempestades, os banhistas devem evitar o mar, rios e piscinas, pois são superfícies lisas e a cabeça, ponto mais alto, pode atrair os raios. Se nadar é perigoso jogar futebol em gramados também traz riscos, já que também o jogo é realizado em superfície plana, com vários pontos altos de riscos. Nestes casos, existem no Brasil registros de várias ocorrências de acidentes fatais. O país é campeão mundial em número de raios, por ser também o maior país tropical; o clima quente favorece a formação de tempestades.

No meio rural, as áreas são geralmente abertas. Encontramos na paisagem  vegetação com pasto natural e cultivado para os animais, quando o agricultor estiver no campo e em meio a uma tempestade, o melhor é abaixar com os pés juntos e as mãos sobre a cabeça. Nunca se abrigue embaixo de árvore isolada. Uma árvore pode receber uma descarga e provocar descargas laterais, podendo causar a morte ou danos irreparáveis a saúde. Muitos animais de criação, também morrem por ano, vítimas destas descargas. Não se aproxime de cercas ou redes elétricas, porque estas recebem influência das descargas atmosféricas e ficam carregadas durante algum tempo.

O problema também existe no campo. Se um trabalhador estiver arando a terra ou dirigindo um trator sem capota, ele corre riscos. Em uma cabine sem proteção, a cabeça é o ponto mais alto. Se tiver um automóvel ou outro veículo com capota por perto, esta pode ser uma boa proteção, pois normalmente os carros são blindados contra raios.
Existem alguns sinais orgânicos sentidos pelo nosso corpo, que prevêem uma tempestade, na praia ou no campo. De acordo com especialistas, se você estiver ao ar livre, durante uma tempestade e sentir seus pelos arrepiarem ou sua pele coçar, este é um sinal de que um raio está para cair na região. Uma recomendação parece básica: Nunca deite no chão, pois é nele que caem as descargas elétricas.



Marco Medronha     mmedronha@hotmail.com

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Jeitinho: A permissão para a tragédia

O jeitinho já foi exaltado como algo benéfico aos brasileiros, uma marca típica de um povo que sempre encontra uma forma de safar-se das dificuldades. Acredito que o jeitinho, quando ligado a criatividade da nossa gente em encontrar alternativas para transformar realidades, dentro das normas legais, pode ser saudável e incentivado. Refiro-me, exemplificando o trabalho de muitas comunidades na reciclagem do lixo ou a saída encontrada por agricultores orgânicos em buscar a produção de alimentos limpos, sem agrotóxicos. São tantas formas criativas e soluções inesperadas que nos surpreendem positivamente.

No entanto, o jeitinho que encarna a tapeação, enganação ou formas de mascarar realidades, para tirar proveito em benefício próprio é condenável. É a permissão para grandes ou pequenas tragédias que vem assombrando o Brasil e o mundo. Como exemplo, cito a recente tragédia ocorrida na boate Kiss, em Santa Maria, onde o jeitinho permitido por pessoas que deveriam dar segurança aos freqüentadores da casa de diversão vitimou fatalmente de 238 jovens universitários, interrompendo sonhos e trazendo sofrimento a centenas e milhares de famílias.

Infelizmente, este tipo de jeitinho está enraizado no nosso meio social e na cultura contemporânea. Muitas situações estão diariamente estampadas na mídia para quem quiser ver. O jeitinho aparece com freqüência no meio político, neste caso o desastre é a corrupção e a enganação ao povo brasileiro. O famigerado jeitinho está nas licenças ambientais, na permissão sem condições de veículos de transporte coletivo sem as mínimas condições de trafegabilidade, na construção de moradias em áreas impróprias para habitação, no passeio de barcos sem coletes salva vidas, na liberação de obras dadas como concluídas e seguras. Em cada uma dessas situações é possível lembrar pelo menos um caso de grande repercussão.

Até mesmo, naqueles considerados pequenos atos provisórios, quando o sujeito faz o perigoso “gato” com a eletricidade, o esperto pode estar colocando em risco sua residência e sua própria família, muitos incêndios aconteceram. O perigo da esperteza, quase sempre ilegal, depende do nosso comportamento perante as situações. Assim, antes mesmo de procurar os culpados depois das tragédias, é saudável avaliar se devemos nos permitir em tais situações de perigo. Tenho a consciência de que muitas vezes aceitamos as condições que nos oferecem, sem contestar, imaginando que estamos imunes a tragédias. Triste engano.

Marco Medronha         mmedronha@hotmail.com

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Respeito aos iguais

Muito se tem falado sobre o modo que devemos lidar com as diferenças, as quais são construídas e apontadas historicamente pela sociedade. Vivemos em um processo de aprendizado contínuo, onde cada um procura se entender, se conhecer melhor, buscar suas raízes, encontrar-se com sua identidade, mas o sistema parece enxergar muito mais as diferenças e talvez por isso estas apareçam mais, são mais marcadas.

Aprendi com meus pais, depois com a vida, que entre pessoas não existem diferenças, que os seres humanos devem ser naturalmente concebidos como iguais. Uma tarefa muito árdua para muitos, pois vivemos em um mundo cercado de preconceitos por todos os lados. É incrível que até mesmo entre os Cristãos, as manifestações contrárias aos ensinamentos da doutrina religiosa são afloradas com facilidade. As diferenças aparecem e se sobrepõem aos iguais.

Se espiritualmente possamos não ter incorporado o sentimento de que perante o “Senhor” somos todos iguais, a lei dos homens entendida como a Constituição da República Federativa do Brasil estabelece, em seu Art.5º, que: “Todo o cidadão brasileiro tem direitos e oportunidades iguais, independente de sua raça, cor, gênero, idade ou condição física”. Os PcD são pessoas que têm impedimentos de natureza física, mental, intelectual ou sensorial permanentes, as quais, em interação com a sociedade podem sofrer com diversas barreiras e terem sua participação plena e efetiva comprometida, no exercício da igualdade com às demais pessoas.

Quando a relação social acontece com a Pessoa com Deficiência (PcD), o assunto realmente complica, pois continuamente estas têm sido segregadas e impedidas de terem seus direitos universais atendidos, como determina a legislação. Para auxiliar aqueles que possuem dificuldades em compreender os iguais, a Faders (Fundação de Articulação e Desenvolvimento de Políticas Públicas), órgão do Governo do Estado RS lançou recentemente uma Cartilha, que além de cumprir sua missão governamental poderá ajudar muito os menos engajados. É uma proposta de mudança de atitude em relação aos nossos iguais. Ressalto aqui algumas procedimentos que poderão fazer a diferença na relação com a PcD, de acordo com a Cartilha da Faders:
·         Se você desejar ajudar, ofereça ajuda, mas não insista. Se precisar de ajuda, a pessoa aceitará sua oferta e lhe dirá o que fazer. Se forçar essa ajuda, isso pode, às vezes, até mesmo causar insegurança.
·         Não estacione seu automóvel em vagas reservadas às pessoas com deficiência física. Tais lugares são reservados por necessidade e não por conveniência.
·         Não segure nem toque na cadeira de rodas. Ela é parte do espaço corporal da pessoa. Apoiar-se ou encostar-se na cadeira é o mesmo que apoiar-se ou encostar-se na pessoa.
·         Quando você e uma pessoa com deficiência física quiserem sair juntas, preste atenção às eventuais barreiras arquitetônicas ao escolherem o lugar que irão visitar.
·         Mantenha as muletas ou bengalas sempre próximas à pessoa. Tome os cuidados necessários para não tropeçar nas muletas.
·         A pessoa com deficiência tem espaço reservado no transporte público.
·         Pessoas com deficiência física, quando necessário, devem ter atendimento acompanhado, com a oferta de lugar apropriado, assim como posições de mesas espaçosas ou com algum tipo de apoio, se houver uso de muletas ou outros acessórios.
·         Se você quer falar com uma pessoa surda, chame a atenção dela, seja sinalizando com a mão ou tocando no seu braço.
·         Enquanto estiverem conversando, manter contato visual; se olhar para outro lado enquanto está conversando, a pessoa surda pode pensar que a conversa terminou. Se a pessoa surda estiver acompanhada de um intérprete, falar diretamente com ela e não com o intérprete.

Respeito aos iguais II

A Faders também auxilia e presta orientações sobre atitudes que devemos em relação a Pessoa com Altas Habilidades (PcAH), as quais necessitam de acompanhamento, especialmente na fase escolar.
Segundo o Ministério da Educação, Altas Habilidades ou Superdotação é uma necessidade educacional especial apresentada por alunos que demonstram grande facilidade de aprendizagem, potencial elevado e grande envolvimento com as áreas da ação humana, isoladas ou combinadas: intelectual, comportamental, psicomotora, artística e criativa. O sistema de ensino, certamente, com raras exceções, não está preparado ou organizado para atender o conjunto de habilidades e competências acima da média apresentados por estes alunos.
Os chamados alto-habilidosos apresentam diferenças significativas sobre a concepção tradicional do processo de ensino e aprendizagem.  Fato que os excluem do processo educacional, apesar da presença física na sala de aula, não aprendem ou desenvolvem conceitos, procedimentos ou atitudes não planejados pelo projeto pedagógico realizado para a média. Isto acontece pela grande facilidade de aprendizagem. Aquilo que seria concebido como normal para os padrões de ensino torna-se algo tedioso e desajustado para as Pessoas com Altas Habilidades, pois sem proposta diferenciada de currículo e educadores, tal aluno tem negado o seu direito fundamental à educação.
Na publicação, “Um olhar para as altas habilidades”, a organizadora do trabalho, Christina Cupertino, relata que o aluno com altas habilidades apresenta algumas especificidades em virtude de como se relaciona com o mundo e com os outros, e que ocorrem por ele ser uma pessoa diferente das outras, dependendo do olhar do adulto (e de seu autoritarismo), essas características podem ser vistas como problemas.
A autora mostra situações do cotidiano e exemplifica que um aluno diferente pode conviver como igual e, isso depende de uma atitude habilidosa do educador. Exemplifica: Se existe a recusa de fazer a prova escrita, o professor pode sugerir a prova oral, pois se ele sabe a matéria, não necessita submeter-se ao sistema de avaliação tradicional, por vezes falido.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Do Zé da Roça para o Luis da Cidade

Algumas situações de exigências impostas aos agricultores inviabilizam a continuidade no campo. São fatos verdadeiramente ocorridos, inclusive de cobrança de multas, que poderiam ser cômicos se não fossem trágicos. A insensatez da legislação fica claro no texto fictício de Luciano Pizzatto, engenheiro florestal do IBDF-IBAMA.  Do qual faço uma readaptação, em duas partes, da carta escrita por um homem da roça a um antigo colega de escola da cidade.  Eis a mensagem:
“Prezado Luis, quanto tempo.
Eu sou o Zé, teu colega de ginásio noturno, que chegava atrasado, porque o transporte escolar do sítio sempre atrasava, lembra né? O Zé do sapato sujo? Tinha professor e colega que nunca entenderam que eu tinha de andar a pé mais de meia légua para pegar o caminhão e que por isso o sapato sujava. 
Se não lembrou ainda, eu te ajudo. Lembra do Zé da Roça... hehehe, era eu. Quando eu descia do caminhão de volta pra casa, já era onze e meia da noite, e com a caminhada até em casa, quando eu ia dormi já era mais de meia-noite. De madrugada o pai precisava de ajuda pra tirar leite das vacas. Você lembra, né Luis? 
Pois é. Estou pensando em mudar para viver aí na cidade que nem vocês. Não que seja ruím o sítio, aqui é bom. Muito mato, passarinho, ar puro... Só que acho que estou estragando muito a tua vida e a de teus amigos aí da cidade. To vendo todo mundo falar que nós da agricultura familiar estamos destruindo o meio ambiente. 
Veja só. O sítio de pai, que agora é meu (não te contei, ele morreu e tive que parar de estudar) fica só a uma hora de distância da cidade. Todos os matutos daqui já têm luz em casa, mas eu continuo sem ter porque não se pode fincar os postes por dentro de uma tal de APPA que criaram aqui na vizinhança. 
Minha água é de um poço que meu avô cavou há muitos anos, uma maravilha, mas um homem do governo veio aqui e falou que tenho que fazer uma outorga da água e pagar uma taxa de uso, porque a água vai se acabar. Se ele falou, deve ser verdade, né Luís?
Pra ajudar com as vacas de leite (o pai se foi, né ), contratei Juca, filho de um vizinho muito pobre aqui do lado. Carteira assinada, salário mínimo, tudo direitinho como o contador mandou. Ele morava aqui com nós num quarto dos fundos de casa. Comia com a gente, que nem da família. Mas vieram umas pessoas aqui, do sindicato e da Delegacia do Trabalho, elas falaram que se o Juca fosse tirar leite das vacas às 5 horas tinha que receber hora extra noturna, e que não podia trabalhar nem sábado nem domingo, mas as vacas daqui não sabem os dias da semana, aí não param de fazer leite. Ô, os bichos aí da cidade sabem se guiar pelo calendário?

Disseram ainda que a comida que a gente fazia e comia juntos tinha que fazer parte do salário dele. Bom Luís, tive que pedir ao Juca pra voltar pra casa, desempregado, mas muito bem protegido pelos sindicatos, pelos fiscais e pelas leis. Mas eu acho que não deu muito certo. Semana passada me disseram que ele foi preso na cidade porque botou um chocolate no bolso no supermercado. Levaram ele pra delegacia, bateram nele e não apareceu nem sindicato nem fiscal do trabalho para acudi-lo”.
Depois que o Juca saiu, eu e Marina (lembra dela, né? Casei) tiramos o leite às 5 e meia, aí eu  levo o leite de carroça até a beira da estrada, onde o carro da cooperativa pega todo dia, isso se não chover. Se chover, perco o leite e dou aos porcos, ou melhor, eu dava, hoje eu jogo fora.
Os porcos eu não tenho mais, pois veio outro homem e disse que a distância do chiqueiro para o riacho não podia ser só 20 metros. Disse que eu tinha que derrubar tudo e só fazer chiqueiro depois dos 30 metros de distância do rio, e ainda tinha que fazer umas coisas pra proteger o rio, um tal de digestor. Achei que ele tava certo e disse que ia fazer, mas só que eu sozinho ia demorar uns trinta dia pra fazer, mesmo assim ele ainda me multou, e pra poder pagar eu tive que vender os porcos, as madeiras e as telhas do chiqueiro, fiquei só com as vacas. O promotor disse que desta vez, por esse crime, ele não vai mandar me prender, mas me obrigou a dar 6 cestas básicas pro orfanato da cidade. Ô Luís, aí quando vocês sujam o rio também pagam multa grande, né? 
 Agora pela água do meu poço eu até posso pagar, mas tô preocupado com a água do rio. Aqui agora o rio todo deve ser como o rio da capital, todo protegido, com mata ciliar dos dois lados. As vacas agora não podem chegar no rio pra não sujar, nem fazer erosão. Tudo vai ficar limpinho como os rios aí da capital.
Mas não é o povo da cidade que suja o rio, né Luís? Quem será? Aqui no mato agora quem sujar tem multa grande, e dá até prisão. Cortar árvore então, Nossa Senhora! Tinha uma árvore grande ao lado de casa que murchou e tava morrendo, então resolvi derrubá-la para aproveitar a madeira antes dela cair por cima da casa.
Fui no escritório daqui pedir autorização, como não tinha ninguém, fui no Ibama da capital, preenchi uns papéis e voltei para esperar o fiscal vir fazer um laudo, para ver se depois podia autorizar. Passaram 8 meses e ninguém apareceu pra fazer o tal laudo, aí eu vi que o pau ia cair em cima da casa e derrubei. Pronto! No outro dia chegou o fiscal e me multou. Já recebi uma intimação do Promotor porque virei criminoso reincidente. Primeiro foram os porcos, e agora foi o pau. Acho que desta vez vou ficar preso.
Tô preocupado, Luís, pois no rádio deu que a nova lei vai dá multa de 500 a 20 mil reais por hectare e por dia. Calculei que se eu for multado eu perco o sítio numa semana. Então é melhor vender e ir morar onde todo mundo cuida da ecologia. Vou para a cidade, aí tem luz, carro, comida, rio limpo. Olha, não quero fazer nada errado, só falei dessas coisas porque tenho certeza que a lei é pra todos.
 Eu vou morar aí com vocês, Luís. Mas fique tranquilo, vou usar o dinheiro da venda do sítio primeiro pra comprar essa tal de geladeira. Aqui no sitio eu tenho que pegar tudo na roça. Primeiro a gente planta, cultiva, limpa e só depois colhe pra levar pra casa. Aí é bom que vocês é só abrir a geladeira que tem tudo. Nem dá trabalho, nem plantar, nem cuidar de galinha, nem porco, nem vaca, é só abrir a geladeira que a comida tá lá, prontinha, fresquinha, sem precisá de nós, os criminosos aqui da roça. 
Até mais Luís. 
Ah, desculpe, Luís, não pude mandar a carta com papel reciclado, pois não existe por aqui, mas me aguarde até eu vender o sítio”. 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Arte das sombras

Bem diferente do que possa parecer, arte das sombras não são atividades sombrias na calada da noite realizadas por artistas do mal. É na verdade a criação de imagens resultantes do diálogo da luz com objetos ou indivíduos para criar siluetas, por vezes inusitadas, em uma superfície plana e clara. Os resultados são incríveis e mesmo sem saber do que se tratava experimentei a expressão artística ainda quando criança.
Era uma manhã fria e ensolarada da minha infância. Eu e meus três irmãos, na época, acordávamos para admirar as sombras refletidas no teto do quarto de nossa humilde casa. Os primeiros raios de sol da manhã projetavam imagens de objetos e dos animais de criação que passavam na frente do sol. Os feixes de luz entravam por frestas e buracos do nó da madeira, formando siluetas, ora paradas, ora em movimento: Galinha com pintinhos, cão vira-lata e até um gato aparecia de vez em quando. Lembro que isso nos alegrava muito.
Logo percebi que poderíamos melhorar nossas opções de brinquedo com aquela situação de sombras que geravam risos, logo pela manhã. Cheio de coragem pulei do quentinho das cobertas e fui para a rua, na frente da luz pulava e fazia todo tipo de movimento. Dentro da casa, deitados e tapados com cobertores, meus irmãos apreciavam e divertiam-se com minhas palhaçadas. Eram momentos felizes de um tempo que não tínhamos televisão, nem imagens em alta definição.
Mais tarde descobri a semelhança do que fazíamos na infância com o teatro de sombras, arte muito antiga originária da China. Segundo a enciclopédia livre, Wikipédia, no ano de 121, o imperador Wu’Ti da dinastia Han, desesperado com a morte de sua bailarina favorita, teria ordenado ao mago da corte que a trouxesse de volta ao "Reino das Sombras". O mago usou a sua imaginação e, com uma pele de peixe macia e transparente, confeccionou a silhueta de uma bailarina. Depois, ordenou que, no jardim do palácio, fosse armada uma cortina branca contra a luz do sol, de modo que deixasse transparecer a luz.
A cultura se espalhou para o mundo, sendo atualmente praticada regularmente por grupos de mais de 20 países. A arte com sombras é comum entre os artistas, os quais fazem uso de sucata para criar peças inovadoras e originais, além de fazer nascer arte de onde muitos acreditavam que nada sairia.